quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Pergunta ao pó - John Fante

Passado na costa oeste, na Los Angeles dos anos 30, "Pergunta ao pó" é uma das obras mais fortes e marcantes da geração esquecida de grandes romancistas e contistas norte-americanos que sucederam a Lost Generation e precederam a Beatnik Generation.

John Fante não só conforta o leitor com uma escrita limpa e cruelmente realista, como ao mesmo tempo nos encanta com a melodia das palavras.
Este escritor norte-americano influenciou homens como Jack Kerouac e Charles Bukowski e merece destaque entre os melhores.

Esta obra nasce das cinzas, ou melhor, nasce do pó dos desertos e das praias que banham a cidade do anjos. Um pó áspero e sufocante que acompanha a história como segundo narrador. Como um guia que tudo sabe mas nada revela.

Arturo Bandini, alter ego do autor é um jovem talentoso contista que vive o dia a dia dos jovens aspirantes a escritores. Passa os seus dias num quarto de pensão barato em Bunker Hill, acompanhado pela solidão da sua máquina de escrever ou vagueia pelas ruas da cidade à procura de inspiração.

Apaixona-se lunaticamente por uma empregada de bar mexicana, de nome Camilla, Camilla Lopez, cuja existência trágica o irá marcar para o resto da sua vida de Homem.

Um romance fabuloso que se lê numa tarde de inverno ao som de Charlie Parker e com um Four Roses no paladar.

Uma obra desconhecida mas que nos cicatriza e apaixona até à última letra.

Nota 5

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Killing Them Softly

Um dos filmes mais aguardados de 2012 acabou por se demonstrar uma peça vulgar e suficiente após vista, revista, pensada e analisada.

Na tentativa de fazer um filme de mafiosos diferente, de sombreado critico quanto à "Corporate America", esta trama, realizada por Andrew Dominik ("The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford"), torna-se insípida e inconclusiva, resumindo-se a uma passagem curta do final do filme.

Um filme que vale de uma passagem mesmo a acabar, do género toque de meta, é um filme simplório com um duplo significado ou metáfora politica muito sublime. Demasiado pequeno e insignificante.

Há uma cena no "Fight Club" que retrata perfeitamente o que este filme é e sempre será (a última cena do filme quando passa o genérico - os amantes do filme vão perceber do que "falo". Para quem nunca viu aqui vai a minha sugestão de resumo).

É verdade que o elenco é de luxo e o James Gandolfini e o Brad Pitt estão ao mais alto nível, mas porque tanta violência explicita para demonstrar que  o "sonho americano" ou os valores do self made man são uma mentira.

Ver o Ray Liotta a ser sovado ao pormenor para perceber que a América e os valores que defende actualmente, com ou sem Obama, são sinónimos pobres do egoísmo e do individualismo chauvinista.

Tinha feito mais sentido demonstrá-lo de forma mais clara e espectacular? The American Way. Não sei! Sou sincero. Mas sabe a pouco e não é de todo brilhante.

Nota 3

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Metade - Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.



"Metade" By Oswaldo Montenegro

Obrigado Miguel

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

The Hobbit: An Unexpected Journey

A eterna fantasia de J. R. R. Tolkien aliado ao poder criativo de Peter Jackson, chega-nos, mais uma uma vez ao grande ecrã, de forma arrebatadora.

A adaptação ao cinema deste "The Hobbit" é de tirar o fôlego e começa nesta primeira parte da trilogia,  fruto da imaginação e incrível dedicação do escritor inglês, veterano de guerra e aclamado académico.

Fabuloso é o melhor adjectivo para descrever este filme. Principalmente visto no cinema em 3D.

Li o romance que precedeu à Trilogia do "Senhor dos Anéis" com 13 anos e agora com 31 passei uma tarde de Domingo chuvosa a recordar e reinventar todos aqueles jovens momentos.

Nesta primeira parte do filme é-nos apresentado o herói da história, Bilbo Baggins, um Hobbit que é convencido pelo feiticeiro Gandalf a acompanhar 13 anões a reclamar e reconquistar a terra prometida, "The Lonely Mountain", perdida anos antes para o dragão Smaug.

Eu, que sou um firme crente do destino ou talvez da divina providência, acredito piamente que as obras de Tolkien e Jackson tinham obrigatoriamente de se cruzar. Como almas gémeas ou mundos paralelos completam-se ao mais ínfimo pormenor.

Nota 5

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Novembro - Jaime Nogueira Pinto

É difícil descrever este romance de estreia do Jaime Nogueira Pinto sem o elogiar de forma repetitiva.
Esperei vários dias para saber o que escrever, mas foi enquanto ouvia o "Siegfried" do Richard Wagner na noite passada que me ocorreram as palavras correctas (ou quase correctas) para vos demonstrar o que ainda sinto depois de me ter apaixonado de forma inconsciente pelas 634 páginas deste livro de proporções épicas.

Muitos foram os que sonharam em descrever os acontecimentos que ocorreram entre o Verão de 1973 e os últimos meses de 1975. Por vários motivos, mas principalmente cobardia, ou melhor, falta de coragem, porque sou (em demasia) politicamente correcto. Poucas são as pessoas que respiram e transpiram ideias e opiniões do outro lado da barricada. Muitos foram silenciados e outros tantos comprados. Outros fugiram e nunca voltaram. Outros vivem na sombra da grandeza dos acontecimentos.

Ligamos o período referido à pré-revolução dos cravos, à revolução propriamente dita, que encerrou quase meio século de regime totalitário neste Portugal de brandos costumes. Poucos sabem o que foi o PREC, as nacionalizações, as prisões, os saneamentos, as ocupações, a reforma agrária.

No entanto é quase nula a percentagem de pessoas que sabe o que foi a contra-revolução, a reacção, a luta ideológica de uma direita dividida, perdida, afogada na incapacidade de união. Não sabem que o Portugal quinhentista, o Portugal Imperial, o Portugal "Portugal", grande nação, pátria de heróis, acabou no fadidico mês de Novembro de 1975.

Enfim. A ignorância foi imposta por uma história adulterada pelos "vencedores" de um 25 de Abril de 1974 ou um 25 de Novembro de 1975 que nunca tiveram a nobreza para contar a verdade, que nunca lutaram pelos seus ideais. Desculpem, mas apenas lutaram pela liberdade revolucionária ou por uma miragem de se tornarem um colonato secundário de uma Europa apodrecida.

Jaime Nogueira Pinto, Homem que considero e respeito, põe a nu o outro lado da "Revolução". O suposto lado escuro e fascista dos que combateram a "liberdade"(foi assim que nos ensinaram).
Num exercício doloroso expõe mitos e expia feridas nacionais profundas de um Portugal embaraçado pela grandeza do que já foi e nunca mais será. Agora um pequeno rectângulo, cada vez mais perdido e cada vez menos independente.

Autobiográfico sem dúvida. Um pouco do autor em todas as personagens de relevo. Em Henrique, em Alexandre, em Eduardo. Todos eles sonhadores. Todos eles realistas e idealistas. Todos eles reaccionários. Todos eles portugueses de honra e nobreza. Sem medo.

Adorei. 
 
Obrigado Professor.

Nota 5

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

End of Watch

End of Watch é um grande filme. Rejeitado por muitos críticos por ser vanguardista em esforço, na forma como foi filmado e pelas técnicas de filmagem utilizadas, é, na minha opinião, um bom exemplo do bom cinema norte-americano que por estes dias vive uma das suas maiores crises criativas.

Tal como em "Training Day" o realizador David Ayer humaniza as personagens ao extremo, tornando-as apaixonadas pelo enredo e apaixonantes para o espectador.

Este filme conta a história banal de dois policiais de giro, num bairro de Los Angeles dominado pelas lutas entre gangues na hegemonia pelo narcotráfico.

Fica na memória pela sua intensidade e aproximação das personagem ao dia-dia do policia comum. Não há heróis ou anti-heróis. Não há good cop, bad cop. Bem pelo contrário. Vidas reais e genuínas.

De repente estava de volta ao final dos anos 80 e a recordar-me de "Colors" com Sean Penn e Robert Duvall, realizado pelo magnifico Dennis Hopper.

Jake Gyllenhall e Michael Peña em grande plano. Mais uma grande aposta que vale a pena conhecer. Vejam-no no cinema.

Nota 4

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Miracles - Walt Whitman

WHY! who makes much of a miracle?
As to me, I know of nothing else but miracles,
Whether I walk the streets of Manhattan,
Or dart my sight over the roofs of houses toward the sky,
Or wade with naked feet along the beach, just in the edge of the
water,
Or stand under trees in the woods,
Or talk by day with any one I love--or sleep in the bed at night with
any one I love,
Or sit at table at dinner with my mother,
Or look at strangers opposite me riding in the car,
Or watch honey-bees busy around the hive, of a summer forenoon,
Or animals feeding in the fields,
Or birds--or the wonderfulness of insects in the air,
Or the wonderfulness of the sun-down--or of stars shining so quiet
and bright,
Or the exquisite, delicate, thin curve of the new moon in spring;
Or whether I go among those I like best, and that like me best--
mechanics, boatmen, farmers,
Or among the savans--or to the soiree--or to the opera,
Or stand a long while looking at the movements of machinery,
Or behold children at their sports,
Or the admirable sight of the perfect old man, or the perfect old
woman,
Or the sick in hospitals, or the dead carried to burial,
Or my own eyes and figure in the glass;
These, with the rest, one and all, are to me miracles,
The whole referring--yet each distinct, and in its place.

To me, every hour of the light and dark is a miracle,
Every cubic inch of space is a miracle,
Every square yard of the surface of the earth is spread with the
same,
Every foot of the interior swarms with the same;
Every spear of grass--the frames, limbs, organs, of men and women,
and all that concerns them,
All these to me are unspeakably perfect miracles.

To me the sea is a continual miracle;
The fishes that swim--the rocks--the motion of the waves--the ships,
with men in them,
What stranger miracles are there?



Miracles by Walt Whitman

domingo, 9 de dezembro de 2012

Sinfonia em Novembro - MQ

E a noite encerrou num abraço com a Lua
Mais nua que uma folha no Outono
Tão fria como o Inverno a Leste
Distante como aquela prisão em Porth Arthur
Tão vazia como uma garrafa no final do jantar
Errante como o quixotesco moinho de vento

Chegou a madrugada montada no seu puro sangue
A galope, como se o mundo terminasse amanhã
Parou, estancou como uma hemorragia de vinho
Olhou-me nos olhos fixamente como se me achasse culpado
Fitou-me de fio a pavio mas nem uma palavra proferiu
Voltou-me as costas e partiu como chegou, perto do horizonte

Numa pressa repentina fiquei só, simplesmente singular
Sem a noite ou a madrugada ou um copo para me agarrar
Ainda acendi um cigarro na esperança de companhia
Fui caminhando na estrada da nossa rua
Sem destino certo, pela estrada fora como o livro do Kerouac
Escrevendo na corrente, com os sentidos despertos

Andei, Andei, comigo próprio dialoguei
Perdi-me numa ruela qualquer, voltei atrás e encontrei o caminho
Nunca me cansei, sem norte, nunca fiquei saciado
Procurei o rio, procurei-o como quem tem sede
Encontrei-o sozinho, de olhos bem abertos

Por entre as nuvens de Novembro encontrei o nascer do Sol
Senti o ridículo do lugar comum
Como se fosse um poema de livro de bolso
Sorri e acendei um cigarro meio húmido da escuridão
Sentei-me no porão, tremendo como uma mulher em ebulição

Enquanto soprava e expirava o fumo para o futuro levantei a cabeça,
O dia queria nascer sob um temporal cínico que se avizinhava
Os raios iam abrindo as asas como verdades por revelar
Explodiam no espaço e no tempo como memórias de amores passados
Tímido este amanhecer, pensei enquanto sorria

Tímido mas real, real como a dor e como o amor
Escuro e frágil como um recém-nascido mesmo antes de chorar
Senti-me bem, respirei fundo, arrepiei-me com esta esperança
Mais um dia após o de ontem, a Terra continuou a girar
Procurei o calor, voltei as costas ao sol e caminhei

Para casa...


Sinfonia em Novembro by MQ

sábado, 8 de dezembro de 2012

21 - Gertrude Stein

21

I love my love with a v
Because it is like that
I love my love with a b
Because I am beside that
A king.
I love my love with an a
Because she is a queen
I love my love and a a is the best of them
Think well and be a king,
Think more and think again
I love my love with a dress and a hat
I love my love and not with this or with that
I love my love with a y because she is my bride
I love her with a d because she is my love beside
Thank you for being there
Nobody has to care
Thank you for being here
Because you are not there.

And with and without me which is and without she she can be late and then and how and all around we think and found that it is time to cry she and I.


21 by Gertrude Stein

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Portrait of a Lady - T. S. Eliot

I

Among the smoke and fog of a December afternoon
You have the scene arrange itself--as it will seem to do--
With "I have saved this afternoon for you";
And four wax candles in the darkened room,
Four rings of light upon the ceiling overhead,
An atmosphere of Juliet's tomb
Prepared for all the things to be said, or left unsaid.
We have been, let us say, to hear the latest Pole
Transmit the Preludes, through his hair and finger-tips.
"So intimate, this Chopin, that I think his soul
Should be resurrected only among friends
Some two or three, who will not touch the bloom
That is rubbed and questioned in the concert room."
--And so the conversation slips
Among velleities and carefully caught regrets
Through attenuated tones of violins
Mingled with remote cornets
And begins.

"You do not know how much they mean to me, my friends,
And how, how rare and strange it is, to find
In a life composed so much, so much of odds and ends,
(For indeed I do not love it ... you knew? you are not blind!
How keen you are!)
To find a friend who has these qualities,
Who has, and gives
Those qualities upon which friendship lives.
How much it means that I say this to you--
Without these friendships--life, what cauchemar!"
Among the windings of the violins
And the ariettes
Of cracked cornets
Inside my brain a dull tom-tom begins
Absurdly hammering a prelude of its own,
Capricious monotone
That is at least one definite "false note."
--Let us take the air, in a tobacco trance,
Admire the monuments
Discuss the late events,
Correct our watches by the public clocks.
Then sit for half an hour and drink our bocks.

II

Now that lilacs are in bloom
She has a bowl of lilacs in her room
And twists one in her fingers while she talks.
"Ah, my friend, you do not know, you do not know
What life is, you should hold it in your hands";
(Slowly twisting the lilac stalks)
"You let it flow from you, you let it flow,
And youth is cruel, and has no remorse
And smiles at situations which it cannot see."
I smile, of course,
And go on drinking tea.
"Yet with these April sunsets, that somehow recall
My buried life, and Paris in the Spring,
I feel immeasurably at peace, and find the world
To be wonderful and youthful, after all."

The voice returns like the insistent out-of-tune
Of a broken violin on an August afternoon:
"I am always sure that you understand
My feelings, always sure that you feel,
Sure that across the gulf you reach your hand.

You are invulnerable, you have no Achilles' heel.
You will go on, and when you have prevailed
You can say: at this point many a one has failed.

But what have I, but what have I, my friend,
To give you, what can you receive from me?
Only the friendship and the sympathy
Of one about to reach her journey's end.

I shall sit here, serving tea to friends...."

I take my hat: how can I make a cowardly amends
For what she has said to me?
You will see me any morning in the park
Reading the comics and the sporting page.
Particularly I remark An English countess goes upon the stage.
A Greek was murdered at a Polish dance,
Another bank defaulter has confessed.
I keep my countenance, I remain self-possessed
Except when a street piano, mechanical and tired
Reiterates some worn-out common song
With the smell of hyacinths across the garden
Recalling things that other people have desired.
Are these ideas right or wrong?

III

The October night comes down; returning as before
Except for a slight sensation of being ill at ease
I mount the stairs and turn the handle of the door
And feel as if I had mounted on my hands and knees.

"And so you are going abroad; and when do you return?
But that's a useless question.
You hardly know when you are coming back,
You will find so much to learn."
My smile falls heavily among the bric-à-brac.

"Perhaps you can write to me."
My self-possession flares up for a second;
This is as I had reckoned.

"I have been wondering frequently of late
(But our beginnings never know our ends!)
Why we have not developed into friends."
I feel like one who smiles, and turning shall remark
Suddenly, his expression in a glass.
My self-possession gutters; we are really in the dark.

"For everybody said so, all our friends,
They all were sure our feelings would relate
So closely! I myself can hardly understand.
We must leave it now to fate.
You will write, at any rate.
Perhaps it is not too late.
I shall sit here, serving tea to friends."

And I must borrow every changing shape
To find expression ... dance, dance
Like a dancing bear,
Cry like a parrot, chatter like an ape.
Let us take the air, in a tobacco trance--
Well! and what if she should die some afternoon,
Afternoon grey and smoky, evening yellow and rose;
Should die and leave me sitting pen in hand
With the smoke coming down above the housetops;
Doubtful, for quite a while
Not knowing what to feel or if I understand
Or whether wise or foolish, tardy or too soon ...
Would she not have the advantage, after all?
This music is successful with a "dying fall"
Now that we talk of dying--
And should I have the right to smile?





Portrait of a Lady by T. S. Eliot

Poetry Jam

Hoje aproveito para abrir um espaço único de partilha lírica na blogosfera nacional. 

Para toda a gente. Leitores ou não leitores, seguidores ou não seguidores deste blogue, puros amantes da poesia. 

Enviem os vossos poemas preferidos ou da vossa autoria para página do facebook do Cemitério dos Livros Perdidos. Os meus preferidos e escolhidos serão publicados!

Fico à espera...



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Filha do Capitão - José Rodrigues dos Santos

Muitas vezes, até demasiadas vezes, são esquecidos os verdadeiros heróis que esta Pátria ofereceu e tem a oferecer. Por vezes esquecemos-nos e envergonhamos-nos dos nosso passado como País. Nunca vou perceber porquê!

Estou a meio de um livro que a bom tempo aqui vou comentar para o expor como uma das obras mais especiais da nova literatura portuguesa do século XXI. A seu tempo. Tudo a seu tempo.

Gostava de deixar um comentário e uma palavra de agrado e apreço pelo trabalho desenvolvido pelo José Rodrigues dos Santos nos seus romances, aos quais já apelidei de "pedagógicos", aquando do comentário que fiz à "Mão do Diabo", o seu mais recente livro.

Tive oportunidade também de escrever que, na minha opinião sincera, o seu melhor e mais puro romance é "A filha do Capitão".

Nesta obra José Rodrigues dos Santos não só conta a história de amor entre um combatente ou soldado português de nome Capitão Afonso Brandão com a bela francesa, natural de Lille, Agnés. Neste obra é feita uma homenagem aos portugueses que perderam a vida em combate na Flandres durante o conflito  ocorrido entre 28 de Julho de 1914 e 11 de Novembro de 1918, a primeira Grande Guerra Mundial.

Uma atenção única e honrosa aos combatentes e heróis do Corpo Expedicionário Português caídos durante a Batalha de La Lys.

Nota 5

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A música do acaso - Paul Auster

E se não tivemos muito mais a perder ou a temer, a nossa Mulher deixa-nos e o nosso Pai morre, deixando-nos uma pequena herança e o agridoce da solidão. O que faríamos?

Jim Nashe, personagem central deste romance notável de Paul Auster, tem todos estes condimentos e condições para se fazer à estrada. Abandonar o tudo, ou o pouco que tem e escolher seguir em frente, rumo ao desconhecido. Atrás de um sonho.

No caminho para o infinito, seguindo a música do acaso, cruza caminho com Pozzi, um suposto brilhante jogador de cartas que vai mudar o seu destino para sempre. Apostar tudo num jogo de cartas contra dois milionários excêntricos. Apostar a herança do seu Pai, a sua liberdade em troca de uma vida sem preocupações.

De repente, Nashe e Pozzi vêem-se presos a um acordo, amarrados a uma promessa. Sujeitos a um trabalho forçado sem objectivos lógicos.

Um livro fantástico que nos ensina que o destino é um lugar estranho. Tudo está delineado, ou talvez quase tudo, ou mesmo nada. Melancólico, cheio de suspense e imprevisível. Apresento-vos "A música do acaso".

Nota 5

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Aristides de Sousa Mendes, O Cônsul de Bordéus

Aristides de Sousa Mendes é uma figura marcante da história contemporânea portuguesa. Para muitos um exemplo do "ser português", para outros muitos "o maior português de sempre". Talvez. Isso é muito relativo. A verdade é que quando tive conhecimento que ia ser passado à grande tela mágica a história deste Homem de convicções fortes, carácter digno, aguardei com ansiedade.

E lá fui, embutido deste espírito humanista e curioso, ver se aprendia mais qualquer coisa sobre a sua biografia.
Não sei se foi da expectativa ou se do contexto pessoal, mas este filme foi uma grande desilusão. Talvez, arrisco-me a dizer, a maior desilusão cinematográfica de 2012.

"Aristides de Sousa Mendes, O Cônsul de Bordéus" passa completamente ao lado da minha ideia, do meu conceito de grande filme.
É um filme simplório e pobre que assenta essencialmente nas interpretações de Vitor Norte e Manuel de Blas. Para além disso, só a escuridão dramática e a banda sonora como tentativas falhadas de preencher os grandes vazios.
De Bordéus nada vi. De Sousa Mendes, frases soltas, sentimentos contraditórios e velhos truques teatrais.

Quando é que o cinema português dá o salto para o grande palco? Quando as produtoras investirem como deve de ser. Sem limites. Sem limitações. Com grandes objectivos.

O filme quer ser o retrato de uma época frágil, quer servir de biografia sem ser biográfico, quer ser grande mas veste.se de luto e caí vergado à pequenez e crise dos novos tempos.

Peço desculpa mas o Grande Aristides de Sousa Mendes merecia mais e melhor. Esta história ficou por contar. O seu legado é mais do que uma nota de rodapé e merece explodir no grande ecrã.

Nota 2

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O Elefante Evapora-se - Haruki Murakami

Já li os Clássicos, os renascentistas, os romanticos, os realistas, os neo-realistas, desde o os britânicos Kipling, Carroll até Ruskin.

Muitos movimentos literários do século XX passaram-me pelos olhos e pelas mãos, o movimento pré guerra, Lost Generation, memoráveis madrugadas e tardes embriagadas com Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Dos Passos ou T. S. Eliot..
A polémica Beat Generation do pós 2 ª guerra onde os olhos e o cérebro me vibraram de sonhos, com Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs. 
A prórxima paragem foi no realismo sujo de Charles Bukowski, Raymond Carver, Tobias Wolff e John Fante (inspirados pelo único, pelo primeiro, Henry Miller).
Até li os russos, numa adolescência com muito tempo livre, para além das actividades escolares e desportivas. Tolstoi e Dostoievski, os meus mestres. Nabokov, Gorki e Tchekhov. Até o Fitzgerald russo, Boris Pasternak e a sua versão do "Great Gatsby", "Dr. Jivago".
Já li quase de tudo. Um pouco de tudo melhor dizendo. Até o movimento de Nova Yorque e os poemas de Frank O'Hara.
Os meus gostos literários vão de Homero e Virgilio a uma nova e talvez tardia descoberta, Haruki Murakami.

Estas semana acabei a sua obra traduzida para português com o a genial colectânea de contos da editora Casa das Letras, "O Elefante Evapora-se". Magia pura em histórias contadas como se de pétalas de uma flor se tratassem.
A Mulher que não consegue dormir e lê Tolstoi horas a fio. Os estranhos "Homens da TV", um assalto ao McDonald´s de madrugada, com a vontade bizarra de pagar as bebidas. A história quase mitológica do Anão que dança até não poder mais.

Sublime, meus amigos.

Triste por ter acabado. Pelo menos as traduções em português.

Nota 5

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Looper

Aproveito os tempos mortos do fim-de-semana para por os filmes em dia. Decidi-me, desta feita, pelo filme que que muita gente andou a comentar há umas semanas atrás. Supostamente na mesma linha de Matrix (o primeiro), inovador e com força suficiente para (re)começar uma nova linha da frente no cinema da ficção cientifico-filosófica.

Não, não é mais do mesmo. Não é uma cópia pretenciosa de vários filmes vanguardistas do passado. Tem material para brilhar. Tem um história que pode ser vista como original e extremamente bem filmada.

Bruce Willis mostra que ainda tem muito para dar e relembra-nos os bons velhos tempos de "Twelve Monkeys".Joseph Gordon-Levitt consolida a sua posição como um dos talentos mais promissores do cinema norte-americano para o século XXI. Emily Blunt demonstra versatilidade e enche o ecrã de personalidade e beleza selvagem.

Talvez seja por já ter visto muita coisa que não me entusiasmo com a qualidade suprema de "Looper". Não obstante entra para a galeria dos melhores filmes de 2012.

"Looper" pega de estaca e tem potencialidade para se juntar a "The Fifth Element" "Matrix", "Twelve Monkeys", "The Butterfly Effect", "Minority Report", "Inception", "Fight Club" e "Avatar" num novo estilo iniciado nos nos ano oitenta com "Back to he future", "Blade Runner" e "Dune". É só a minha opinião. Não estou a comparar filmes. Todos têm o seu lugar.
 
Esperemos que sim. Esperemos que tenha razão.

Gostei e recomendo.

Nota 4

domingo, 25 de novembro de 2012

360

Por vezes os críticos são injustos com os filmes. Lembro-me de ler uma critica num jornal português (não vou dizer qual o jornal, nem qual o nome do critico) deste "360", realizado pelo Fernando Meirelles, e adjectivá-lo de vulgar, para não o apelidar de ordinário.

Para a maior das pessoas que gostam de cinema isto é motivo para pelo menos adiar o filme para um serão calmo ou uma tarde de chuva num domingo qualquer (foi exactamente o que fiz).

Esta peça não é vulgar, muito menos ordinária (ou cheia de lugares comuns). É um filme simples que retrata vidas simples e ao mesmo tempo complexas, unidas pela teia de um destino inexistente. Decisões difíceis, momentos difíceis. O caminho das pessoais normais, a sua viagem pela vida tal como ela é. Nisso Fernando Meirelles foi e é muito bom.

Não há aqui nenhum tentativa de ser genial ou espectacular. Apenas a vontade de demonstrar que em vários lugares do mundo somos seres únicos e imperfeitos à procura de tudo ou de nada. Ou nos deixamos levar pelas forças ocultas, arrastar pela maré ou escolhemos a bifurcação na estrada.

Isto é vulgar? Talvez. Mas todas as nossas vidas o são. Até ao dia em que escolhemos outro plano, outra via e, em circulo perfeito, voltamos ao agridoce quotidiano das nossas existências.

Talvez não haja sentido. Será que tem de haver? Talvez o único sentido são as escolhas que fazemos e as consequências dos nossos actos e palavras. Talvez até somos cobardes. Talvez até somos bravos e valentes e damos um murro na mesa que é redonda e que nos vai levar ao ponto de partida.

Vejam-no com os vossos olhos. Encontrem pontes com a vossa vida e parem de ler criticas de cinema nos jornais. Pronto, pelo menos deixem de lhes dar tanta importância. São opiniões. E como diz o Palma "as certezas são mais caras do que as opiniões".

Nota 4

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

2 Days in New York

Mais ou menos vinte e quatro horas depois de ver o excelente "2 Days in Paris" decidi finalmente ver a sequela protagonizada pela repetida realizadora, argumentista e actriz Julie Delpy, mas com um tease maior, a participação de Chris Rock.

Não sei se foi por ter colocado as expectativas demasiado elevadas ou por não ter tido distanciamento suficiente do primeiro filme mas o fosso de qualidade que os separa é abismal.

Desta vez o filme pára no tempo e, com um cenário tão cosmopolita, falha redondamente qualquer mensagem. Falha o estilo apresentado de forma genial no primeiro filme. Falha o pública já cativado.

Nem o pobre do Chris Rock tem piada. Não há uma cena cómica em todo o filme. Pronto, estou um pouco frustrado! Há uma ou duas. Mas são tão básicas e elementares que se perdem com o pobre enredo.

Desta vez é a família francesa que visita Marion em Nova York por dois dias, mas o excessivo gozo do imigrante europeu inadaptado torna-se cansativo de tanto ser um lugar comum.

O que no primeiro filme era sublime na sequela é óbvio e muitas vezes ordinário. Parecia que estava a ver o "Crocodile Dundee" e estava de volta aos anos 80. Uns saloios da província vêm à cidade pela primeira vez e o choque de culturas é terrível. Por amor de Deus. Século XXI, era da Globalização, Julie Delpy? Ring a Bell?

Que desilusão. Apenas vale a pena para entender o enfiamento da história começada no "2 Daysin Paris".

Nota 2


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

2 Days in Paris

Curiosamente uma semana antes de estrear o filme "2 Dias em Nova Iorque" passei pela Fnac e deparei-me com um filme com um titulo mais ou menos semelhante. Mudava apenas a cidade de cenário. Em vez de Nova Iorque tinhas a luminosa Paris. Por 5 euros valia a pena. Que ignorância! Fiquei a saber que se tratava da prequela. Não me arrependi!

Escrito, realizado e interpretado por Julie Delpy , "2 Dias em Paris" é uma tentativa de sucesso de apresentar ao cinema, em forma de metáfora, um novo estilo de comédia romântica. Mais do que o já enjoativo formato boy meets girl, boy falls in love, girl leaves boy, boy and girl get together and live happily ever after.

É muito mais do que uma critica ao esteriotipado francês porco, que não toma banho, racista e mal educado. Não deixa de o ser, mas, nada do que é retratado no filme é exagerado. É cómico e original não por ser uma caricatura, mas um espelho da realidade.

Marion e Jack vivem em Nova York e, após umas férias em Veneza, decidem fazer uma visita de dois dias a Paris, com o objectivo de conhecer a família de Marion que tinha ficado a tomar conta do gato de estimação.. Uma típica família francesa, saloia, intelectual e liberal, filha da década de sessenta. Uma mistura explosiva.

Durante a estadia Jack (Adam Goldberg) vai perceber finalmente a mulher que tem ao seu lado e com quem partilha a vida durante os últimos dois anos quando começa a entender que todos os homens com quem se cruza em Paris são ex-namorados de Marion.

Um olhar sobre as relações actuais entre homens e mulheres. Talvez um "em busca do conceito do Amor espiritual definido por Cícero".

A não perder.

Nota 4

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pulp - Charles Bukowski

Assim, de uma só vez saem para o mercado, editados pela Alfaguara, dois romances incríveis de Charles Bukowski, “Hollywood” (já tive oportunidade de postar aqui a minha opinião sobre este livro) e “Pulp”.

Pulp, o último romance de Charles Bukowski, completamente a oeste de tudo o que escreveu, foi redigido nos últimos dias de vida deste grande romancista, poeta, boémio e sonhador.

Uma nova personagem principal, um novo narrador, um novo alter ego do escritor californiano, o super detective hollywoodesco Nick Belane. Vários casos por resolver, várias personagens marginais, a senda pela razão de tudo isto, a procura do significado para uma vida preenchida e reduzida a nada a poucos dias do fim.

Como se pressagiasse o futuro, Bukowski cria uma personagem brilhante, central para todo o enredo, a Senhora Morte. Esta figura é transversal a todo o romance e aparece precisamente em forma de mulher. Qual femme fatale. O seu confronto com Belane é a realização do autor com a proximidade da "Parca". Cita-a de perto, chama-lhe nomes, enamora-se dela, trata-a por Tu e cai a seus pés.

Uma despedida em forma de livro. Um romance noir. Uma comédia “bukowskiana”. O fim é o princípio de tudo.

Romance essencial para quem gosta de ler.

Nota 5

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

After Dark Os Passageiros da Noite - Haruki Murakami

Em "After Dark Os Passageiros da Noite" Murakami consegue mudar completamente o seu estilo e a motivação da sua escrita.

Como narrador observador, alguém que, apesar de presente, serve o leitor como uma camera de filmar, seguindo a vida de várias personagens durante algumas horas numa noite como outra qualquer.

Passado durante uma noite em Tóquio, seguindo as criaturas da noite, pessoas como eu e tu, profundamente sós, simplesmente humanas.

A história de Mari e a sua estranha e distante relação com a sua irmã Eri. A coincidência do aparecimento nas suas vidas de Takahashi, jovem músico que transporta a narrativa para o "love" Hotel, Alphaville.

Uma prostituta de nacionalidade chinesa é agredida por um homem vulgar, Shirakawa, um simples empregado de escritório com gostos e vícios sórdidos.

A Máfia chinesa está também presente na capital japonesa. Controla parte da prostituição na cidade e os seus membros fazem parecer os Yakuza meninos de coro.

Como diz o autor, as horas vão passando e vamos sendo "reduzidos a ponto de vista", o que torna o romance impossível de largar. Diferente, mas bom! Tão bom que o ofereci quando ia a meio e comprei de novo.

Nota 4

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Canção de Amor em Dez Andares - Richard Milward


Gosto de ler sobre personagens completamente disfuncionais mas, ao mesmo tempo, verosímeis. Pessoas a sério. Pessoas de carne e osso que procuram um dia de cada vez, como se cada amanhecer fosse um sopro de sorte, como se cada dia fosse o último dia das suas vidas sujas e banais.

Gosto de ler sobre os marginais e os fora-da-lei. Aqueles que bebem, aqueles que se drogam, aqueles que roubam, aqueles fazem tudo por tudo por ser politicamente incorrectos. Sempre foi assim e é assim em "Canção de Amor em Dez Andares".

Procurei e encontrei algo que vale a pena ler no meio do lixo, no meio da lixeira, no meio daquela pedreira de restos tóxicos junto a todos os prédios que conheço.

A vida, o quotidiano infernal e banal das estranhas, mas autênticas personagens num prédio comum, como o meu e o teu, onde Bobby, o Artista, completamente "frito", instável e neurótico pelos ácidos, tenta chegar ao topo da sua carreira como pintor.

A vida de Alan Blunt, "o coninhas", um pedófilo incorrígível, que não consegue deixar de rondar a escola primária local, trocando rebuçados por ataques de ansiedade.

A vida de Johnnie, um ladrão à antiga que quer deixar de ser um ladrão à antiga para seguir uma vida de amor, paixão e fulgor sexual com a sua namorada Ellen.

Encontrei neste romance de Richard Milward mais do que um sucessor digno de Irvine Welsh. Encontrei nesta obra o reinventar original do estilo literário punk.

Encontrei neste livro o belo e o sublime das nossas vidas vulgares. Não percam. Vale mesmo a pena. Uma comédia, uma tragédia, em pleno século XXI.

Nota: 4

Crónica do Pássaro de Corda - Haruki Murakami


Mais uma vez, num registo surreal, Haruki Murakami leva-nos a mundos que alternam entre o físico e o metafísico, numa eterna busca pela verdade da condição humana.

A vida calma de Toru Okada muda de repente após o telefonema bizarro de uma estranha mulher. Ao mesmo tempo, a sua própria mulher deixa-o só, numa casa vazia e recheada de portas por abrir, desaparecendo, sem rasto, durante meses.

A auto descoberta e a jornada ao mais profundo do seu ser começa aqui, num ponto comum a muitas vidas, num Japão contemporâneo, com toques ocidentais e uma História preenchida por muitas estórias por contar.

Personagens dúbias, misteriosas e fantasmagóricas inundam a existência de Okada apontando-lhe o caminho para o conhecimento dos seus próprios medos e segredos mais escondidos.

Este romance é uma lufada de ar fresco e ajuda-nos a compreender num só suspiro a famosa paz melancólica e nostálgica do povo japonês.

Sem dúvida "Crónica do Pássaro de Corda" é um grande, um Enorme romance.

Nota: 5

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Velho Expresso da Patagónia - Paul Theroux


Paul Theroux, experiente viajante, homem de letras e de sonhos, leva-nos a conhecer todo o continente Americano. Guru da literatura de viagens, com um estilo impossível de imitar, segue com ansiedade o caminho dos deuses.

Imbuído do espírito de vagabundo, agarrando a mochila cheia de livros e desejos ensopados de adrenalina, faz-se à estrada, de Boston até ao mundo perdido da Patagónia.

Para chegar ao famoso deserto, Paul Theroux, escolhe o caminho mais duro. É sincero, honesto e caustico mas transmite-nos, de forma inigualável, o espírito do guerreiro aventureiro.

Do México à Colombia em comboios prenhos de gente apesar de essencialmente vazios de companhia. Por terra, pelo ar, do Canal do Panamá à Guatemala, numa miragem do Pacífico, até Buenos Aires onde , finalmente conhece o génio, o mestre, o sábio, Jorge Luís Borges.

Sem ordem, nem caos, sem caminhos pela frente para além do destino solitário do deserto da Patagónia.
Uma obra prima impossível de parar de ler. Um prazer inovador e arrepiante. Uma vontade de ir.

Nota: 5

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Hollywood - Charles Bukowski


Neste admirável romance, Charles Bukowski é Henry Chinaski, velho bêbedo amante da folia, das mulheres e das corridas de cavalos. Desta vez o alter ego de Bukowski descreve o behind the scenes do filme “BarFly”, cujo guião foi escrito por si, protagonizado por Mickey Rourke e Faye Dunaway e realizado por Barbet Schroeder.

Na sua forma única, enriquecendo os diálogos, tornando-os reais aos olhos dos leitores, este grande vulto da literatura contemporânea recente, leva-nos num tour aos meandros cínicos e hipócritas de Hollywood. O estrelato vulgar dos actores, as exigências e mentiras dos produtores, os sonhos dos realizadores.

Mais uma vez, Charles Bukowski não desilude em mais um romance recentemente traduzido e editado pela Alfaguara. “Hollywood” tem todas as características para se transformar numa obra de culto.

A vida real no seu estado mais puro, ou talvez não. É melhor adjectivá-la como embriagada. Caso contrários, os amantes do autor e a sua obra (onde estou incluído) fazem-me a folha. Parabéns à editora pela aposta.

Nota: 5

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Total Recall



O Total Recall de que me recordo é um marco no início da minha adolescência. Um filme de 1990, vanguardista da ficção científica, na linha imaginativa de Blade Runner ou Dune, com a mão mágica de Paul Verhoeven e Mario Kassar.

Baseado num conto de Philip K. Dick, conta-nos a história de um homem simples que quer viajar até Marte  induzido por uma máquina de fabricar memórias e químicos psicadélicos. O mundo transforma-se completamente e é impossível distinguir quem é amigo ou inimigo, qual a realidade e a ficção. Mas, quando me disseram que ia sair um remake do Total Recall, pensei para comigo: vai ser difícil de superar. Enfim, lá arrisquei.

Não foi só dificil!  Conseguiram destruir uma obra inimitável em 2 horas de copy/paste. As únicas coisas válidas neste novo Total Recall são a Kate Beckinsale e a Jessica Biel.  Demasiado mau para ser verdade. Não gastem o vosso dinheiro. Se gostam de apostar... escolham o original!

Nota: 2

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Joseph Anton - Salman Rushdie‏



Um livro de memórias, uma autobiografia escrita na terceira pessoa, um livro de espiação ou talvez uma confissão de mais de setecentas páginas.

Este novo livro de Salman Rushdie, "Joseph Anton", serve essencialmente para nos contar os acontecimentos da vida pessoal do escritor que, em 1989, foi condenado à morte pelo lider religioso do Irão, o Ayatollah Ruhollah Khomeini, por ter escrito um suposto livro que insultava o Islão, "Os Versículos Satânicos".

Os anos de exílio, o medo, o terror, a necessidade de mudar de casa várias vezes, as traições das pessoas que estavam mais perto, os amigos que consolidou e criou e que o apoiaram até fim do degredo. Para além deste periodo, Rushdie escreve sobre todos os periodos importantes da sua vida (até os menos importantes): a infância, a adolescência, a vida académica, a relação atribulada com o pai, a construção de todos os seus livros e as suas motivações. As suas mulheres, os seus filhos, os seus amigos, escritores, editores, jornalistas e até agentes de segurança. Todas a pessoas que directa e indirectamente estiveram envolvidos na sua vida.

Joseph Anton foi o nome escolhido pelo escritor durante os anos de exílio. Um nome falso mas baseado em dois vultos da literatura, Joseph Conrad e Anton Tchékhov.

Joseph Anton é um livro forte que consolida e transforma um grande escritor, um vulto literário banhado pela controvérsia, num simples homem. Um homem com sonhos, medos e memória.

Nota: 4

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hemingway & Gellhorn‏



Num periodo em que os ideais queriam dizer alguma coisa, em que as causas só eram perdidas depois da morte, ou talvez após o abraço da eternidade, Martha Gellhorn, jovem jornalista, conhece Ernest Hemingway e seguem, como correspondentes de guerra, para Madrid, cobrindo a Guerra Civil de Espanha.

Durante o conflito nasce uma paixão estonteante entre os dois. Identificam-se um com o outro. Bebem um do outro por longas noites debaixo dos bombardeamentos nacionalistas. Casam-se quando chegam a Cuba e vivem momentos de curta felicidade. Gellhorn quer viver a sua vida e recusa-se a viver na sombra do grande romancista. Quer cobrir conflitos por todo o mundo, quer escrever sobre as pessoas por detrás da Guerra. Quer descrever os seres humanos que sofrem com os horrores da guerra. Quer ver com os seus olhos, como correspondente de guerra, a realidade crua das vítimas do pesadelo bélico.

Esta história deveria ter sido contada no grande ecrã e aflige-me solenemente o facto de ter sido passada a mini-série. Diminuida como se algo de secundário se tratasse. 

Com uma Nicole Kidman estonteante e um menor Clive Owen, este Hemingway & Gellhorn, passou ao lado da grande maioria dos amantes da arte da representação.

Kidman interpreta um dos seus maiores papeis, como a carismática Mrs. Hemingway número três, ou melhor, a explosiva, corajosa e humana, Martha Gellhorn.

Esta mini-série da HBO causou-me sentimentos mistos. 

Actores formidáveis como Nicole Kidman, David Strathairn (como John dos Passos), Rodrigo Santoro (como o revolucionário Paco Zarra), Tony Shalhoub (como o jornalista estalinista Mikhail Koltsov), Santiago Cabrera (como o grande fotográfo Robert Capa). Ou mesmo participações especiais do grande Robert Duvall ou do baterista dos Metallica, Lars Ulrich.

Tudo isto para uma infeliz e mediocre produção. Esta história merecia ser melhor contada.

Nota: 3

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Bronx Tale



Ontem, ao passar por um quiosque de rua, daqueles que vendem jornais e tabaco à antiga, deparei-me com um dvd à venda (a preço de saldo) de um dos filmes que mais marcou o início da minha vida adulta.

Era "A Bronx Tale", película fantástia realizada e protagonizada por Robert De Niro.

Este filme conta-nos a vida e o crescimento de um miúdo chamado Calogero, num perigoso bairro italiano do Bronx Nova Iorquino. Filho de um condutor de autocarros, este jovem é testemunha de um assassinato de um homem pelo mafioso Sonny, interpretado de forma excelente por Chazz Palminteri. A partir desse momento, a sua vida muda e conhece-se homem num mundo dominado pela Máfia.

Quem já viu sabe porque falo desta forma deste filme. Quem ainda não viu fica aqui a recomendação. Não podem perder este tesouro!

Nota: 5

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A Mão do Diabo - José Rodrigues dos Santos



José Rodrigues dos Santos, como escritor, continua a cativar adeptos do seu estilo único de "romancista pedagógico".

Desta vez volta com a sua mais famosa personagem e alter-ego, Tomás Noronha, lançando-o para o cenário mais actual possível - a crise económica, financeira e social.

A crise que surgiu em 2008 nos Estados Unidos com a explosão da bolha do mercado imobiliário, o seu contágio ao resto do mundo, a entrada da China nos mercados e as crises de dívida pública nos países do Sul da Europa, precipitaram a crise da Zona Euro. 

A teoria do fracasso da moeda única, com respectivas causas e consequências, transforma "A Mão do Diabo" numa obra obrigatória.

É verdade que José Rodrigues dos Santos escreve paras as massas. A linguagem é simples, os enredos fantasiosos e inverosímeis (como os grandes blockbusters de Hollywood), mas são só uma concha, uma capa para a verdadeira missão do jornalista português: informar. Onde outros falham e continuam a falhar, José Rodrigues dos Santos brilha.

Não é um grande romance. É talvez até mediocre. Além de "A Filha do Capitão" e "A vida num Sopro" poucos são os livros que considero.

No entanto, José Rodrigues dos Santos, de uma forma superficial e simples, explica a toda a gente os motivos da crise profunda em que estamos mergulhados. Isso deve ser reconhecido. Já o tinha feito antes em todos os seus livros.

Excelente trabalho de investigação e comunicação. Extremamente inteligente e actual.

Nota: 4

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sputnik, meu amor - Haruki Murakami



Este foi o primeiro livro que li de Haruki Murakami. E o que posso dizer? Ao terminá-lo decidi ler a obra toda do maior escritor japonês vivo.

O livro fala-nos de amores impossíveis, amores invisíveis, medos, inseguranças, intimidade e histórias ainda por escrever.

A história centra-se à volta de três personagens principais. Primeiro, o narrador, professor do ensino primário, apaixonado por uma jovem de comportamentos bizarros, mas pura, culta e apaixonante, Sumire.
Por sua vez, Sumire apaixona-se pelo terceiro vértice deste triângulo amoroso, a glamorosa e misteriosa Miu, uma Mulher madura e experiente, de grandes posses.

O clímax deste livro é atingido numa viagem em o súbito desaparecimento de uma das personagens precipita a procura pelo destino.

Sputnik, Meu Amor, é um dos livros mais vendidos no mundo mas só se o devorarmos de fio a pavio é que nos permitimos encontrar a chave para o mistério.

Nota: 4

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Ruby Sparks


Hoje vi um excelente filme. Não sei muito bem como o etiquetar porque me fez essencialmente sorrir. Não é necessariamente uma comédia mas, ao terminar, não pude deixar de sorrir incessantemente.

Um jovem escritor, Calvin Weir-Fields, com apenas um famoso e genial romance publicado, enfrenta um bloqueio de escrita. Não sabe o  escrever, nem como escrever. A sua vida é uma confusão solitária e todas as noites sonha com uma mulher misteriosa que debita o seu nome.

Certa noite, uma súbita e electrizante inspiração percorre-lhe as veias desaguando na foz de uma incrivel criação, Ruby Sparks. A mulher que aparece nos sonhos e sobre quem escreve é real. Real como a vida. De carne e osso.

A partir deste momento, a vida de Calvin jamais será a mesma, num mundo, onde realidade e ficção se misturam.

Este filme não nos deixa indiferentes pela sua originalidade. Ruby Sparks é um bom pedaço de cinema. É de aproveitar, numa altura em que os filmes de elevada categoria há muito nos deixaram de abraçar.

Nota: 4

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez‏



Este autor e esta obra continuam um estilo de escrita semi-pornográfico, escatológico, sexista e chauvinista já apresentado à literatura pelos génios Charles Bukowski e John Fante.

Por muitos considerada literatura menor, mas por mim admirada e recomendada, este estilo põe a nu os desejos, os caprichos e as experiências mais sujas e depravadas da natureza humana.

Pedro Juan Gutiérrez tem o dom de o fazer com ainda mais afinco que os seus antecessores e, desenterrando a podridão, conta o quotidiano miserável de Havana dos anos noventa em pequenos contos interligados.

Ao lê-lo podem ter a certeza que ficam a conhecer muito melhor a realidade social cubana. Muito mais do que uma viagem a Cuba com tudo incluído. Aqui, a viagem é curta mas profunda, suja e decadente. 

Alguns leitores podem ficar chocados com o descrito nesta obra fenomenal, mas o choque é antónimo da indiferença (inimiga da Arte).

Esta é, sem dúvida alguma, a grande arma de Gutiérrez e funciona com regra máxima na sua obra. O seu melhor livro e um marco na literatura latino-americana.

Nota: 5

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Bom Inverno - João Tordo


O Bom Inverno conta-nos a história de um jovem coxo e talentoso escritor que, após uma curta viagem a Budapeste, para um encontro entre escritores, conhece e trava amizade com um jovem italiano, Vincenzo Gentile, que o convida a passar uma temporada numa casa do lago em Sabaudia, Itália.

É a partir desta viagem que a nossa personagem (também narrador), completamente isolado do seu e do nosso mundo, vai conhecer personagens misteriosas e pouco ortodoxas, retiradas de um Filme de David Lynch.

Só para citar alguns: um excêntrico produtor de cinema, Don Metzger, com um estranho gosto por balões de ar quente; Andrés Bosco, um catalão, encorpado e sinistro, que constrói ele próprio os balões de Mezger; Elsa Gorski, uma atriz famosa, tipo femme fatale, sensual e perigosa. Muitas, mas muitas mais personagens que tornam a teia complexa e distinta.

Tudo começa com a morte do anfitrião, Metzger e, a partir daí, um clima de suspeição e um nevoeiro de dúvida caem sobre a casa do lago e estragam a festa.. Quem é o assassino? A história vai-se revelando em direcção à verdade.

Um grande romance, de um jovem escritor português, com cartas dadas e um lugar de destaque no panorama literário português.

Nota: 4

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Safety Not Guaranteed



Há filmes que nos ficam na retina e na memória por motivos que não conseguimos explicar. Por nos apelarem à razão, por nos aquecerem o coração ou simplesmente porque os vimos numa altura estranha das nossas vidas e neles mergulhamos os nossos sentidos.

Imaginem que liam num anúncio de jornal de classificados alguém à procura de um companheiro para viajar no tempo. Não, não é brincadeira. Viajar no tempo. Sem garantia de segurança.

Esta é a história de um grupo de três jornalistas que sai de Seattle para escrever uma história sobre a pessoa que escreveu o anúncio. Será real? Serão devaneios de um louco? Viajar no tempo será metafórico. Uma jornada pela vida, uma viagem pela mudança, pela verdade, mas em direcção ao futuro.

"Safety Not Guaranteed" passou pelo festival de cinema de Sundance de 2012 e, aclamado pela crítica, venceu o Waldo Salt Screenwriting Award.

Nota: 4

terça-feira, 23 de outubro de 2012

As Cinquenta Sombras de Grey - E L James



Comprei as As Cinquenta Sombras de Grey numa manhã quente de verão enquanto acabava dois livros que andava a ler há demasiado tempo. Pensei, talvez seja bom para sair da rotina. Entretanto, foram passando dias e dias, livros novos pelo meio e o romance de E. L. James (primeiro da trilogia) transformou-se num fenómeno mundial. Lá decidi, super entusiasmado, começar a ler esta suposta maravilha.

Acreditam que li perto de 100 páginas num esforço brutal para a chegar à parte "picante" e não aguentei mais? Que sacrificio. Tão mal escrito. Tão fútil. Tão imaginação de uma quarentona frustrada sem talento. Enfim. Parei e tive vai não vai para lhe fazer o mesmo que quis fazer com o "Crepúsculo". Deitá-lo fora. Nem a parte da "mommy porn" me despertou curiosidade. 

O sucesso? Chega a toda a gente pela simplicidade e fala de sexo (semi-hardcore). Nem percam tempo.

Nota: 1

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Seeking a Friend for the End of the World



Imaginem que o mundo vai acabar dentro de três semanas e que podem escolher tudo o querem fazer e que nunca tiveram possibilidade ou coragem de dar o passo em frente. Agora não existem consequências. Alguns escolhem os prazeres do alcool, do fumo, do sexo, fazer uma viagem, motins, uma loucura; outros simplesmente querem estar com a sua familia e aproveitar os últimos dias de vida.

Com este cenário apocalíptico e a dias do asteroide "Matilda" chocar com a Terra, Dodge (Steve Carell) fica sozinho e não sabe o que fazer com a vida apática que levava até então. É nesse momento, numa daquelas carambolescas coincidências do destino, que conhece a sua vizinha Penny (Keira Knightley). A partir deste momento vão-se tornar inseparáveis e partem numa viagem de aventura rumo aos sonhos, ao passado, à redenção e ao amor...em direcção ao fim inevitável (ou ao principio de tudo).

Participações especiais de Martin Sheen e William Petersen. "Seeking a Friend for the End of the World" é um filme diferente. Uma comédia diferente. Não esperem! Vejam!

Nota: 4

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ham on Rye - Charles Bukowski



Há alturas das nossas vidas em que, ao olharmos para trás no nosso caminho, as memórias da infância e adolescência parecem ser longínquas, como miragens no deserto.

Este "Ham on Rye" serve para Charles Bukowski como expiação para memórias dolorosas dos seus jovens anos.

De uma crueza e dureza impressionantes, Bukowski traz-nos de volta a sua personagem mais famosa, o autobiográfico e errático Henry Chinaski. Neste romance explora as aventuras e desventuras de um jovem solitário, desenraizado, marcado pelo acne e pelos espancamentos brutais do seu pai, a crescer na cidade de Los Angeles dos anos 40 e 50.

Considerado por muitos o melhor livro de Charles Bukowski, "Ham on Rye", é basicamente o resumo do inicio da vida do autor em memórias. Cozido por uma simplicidade cortante e fascinante, este livro, deixa-nos marcas profundas na melhor compreensão do comportamento humano.

Nota: 5

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Assédio - Arturo Pérez-Reverte‏



Para os fãs de Arturo Pérez-Reverte este era um aguardado regresso. Um livro colossal em tamanho, em conteúdo, em personagens, em intrigas e, como não podia deixar de ser, em mistério.

Como se de uma partida de xadrez se tratasse, Cádis 1811, várias mulheres aparecem mortas e nesses mesmos locais cai uma bomba, acontecimentos enigmáticos que vão marcando um mapa pela cidade. Um mapa lógico orquestrado por um assassino misterioso. Todas as personagens são suspeitas, ninguém sai incólome, ninguém é dono do seu próprio destino.

Pérez-Reverte dá-nos as coordenadas para um romance único, com todos os condimentos por ele utilizados noutros romances. Todos condensados num só livro. Talvez a sua obra prima. Apresento-vos Assédio.
Brilhante.

Nota: 4

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

The Avengers


Eu, que não sou decididamente fã de livros aos quadradinhos, vi-me meio adoentado, num sábado à tarde, a experimentar um filme com personagens da Marvel e dos livros de banda desenhada, "The Avengers". Quem diria? E não é que gostei? Gostei da energia, dos efeitos especiais, da força e personalidade das personagens, sejam elas o Capitão América (o meu preferido - talvez por ser o mais antigo), o Iron Man (bilhante Robert Downey Jr.), o Thor, o Hulk ou a sexy Black Widow (Scarlett Johansson). Gostei dos diálogos curtos e cortantes, das cenas de acção, das paisagens exuberantes.

Fiquei a observar este filme de duas horas como se fosse um miúdo de doze anos, como se conhecesse todas aquelas histórias aos quadradinhos desde sempre. Guerras entre mundos, outras galáxias, super-poderes, eu sei lá...Fascinante.

Nota: 4

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Clube de Patifes - Dan Simmons



Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, Ernest Hemingway monta em Cuba, na Finca Vigia (a sua casa), juntamente com o agente do FBI Joe Lucas, um pequeno grupo amador de espionagem, patrulhando e observando as operações americanas e alemãs naquela pequena ilha das Caraibas.

Este "Clube de Patifes" de Dan Simmons foca os últimos dias da vigorosa existência do escritor, tratando-o como personagem principal de um romance de espionagem.

A pesca, as armas, os charutos, o alcool e o feitio especial de Hemingway são brilhantemente retratados nesta fantástica obra de ficção.

Um livro fácil de ler que nos leva a conhecer pormenores da biografia do melhor e mais completo escritor americano do século XX. Perfeito para os fãs de Simmons e do estilo de literatura de espionagem à le John Le Carré, essencial para os fãs de Hemingway. 

Quando comprei este livro torci o nariz de desconfiado mas, um fim-de-semana depois já estava triste por se ter acabado a aventura.

Nota: 4

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

The Cabin in the Woods‏


The Cabin in the Woods é um fenómeno do cinema de terror. Isto acontece por ser um filme de uma originalidade impossível de etiquetar. Sim, temos os Zombies, uma casa isolada no bosque, os cinco adolescentes ingénuos prontos a morrer torturados das mais variadas formas.

Mas, e se tudo isto fosse orquestrado, arquitetado por homens de bata branca, filmado por mil e uma câmeras como se fosse um programa de reality tv?

E se estes jovens estivessem a fazer parte de um jogo, um ritual, um sacrifício para um bem maior. Será que isto continuaria a ser um filme clássico de terror ou algo muito mais requintado?

Não Amei, mas vou ser sincero, divertiu-me a ideia e o conceito.

Escrito e realizado por Drew Goddard, mestre de Cloverfield, pode ser visto por qualquer um, mesmo aqueles com estômago fraco.

Nota: 3

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Transit



Quando pensava que a carreira cinematográfica de Jim Caviezel não podia piorar, cometi o erro de perder uma hora e meia a ver "Transit".

Uma familia em vias de extinção parte em viagem pelo sul dos Estados Unidos para acampar e passar bons momentos de união familiar. Ao mesmo tempo, um grupo de ladrões de bancos psicopatas vão aterrorizando a viagem da familia, explodindo numa espiral de violência.

Este filme perde o sentido desde inicio, quando o "sem expressão" Jim Caviezel vai cantando canções e jogos de viagem, ao mesmo tempo que conduz o seu jipe num registo de pai responsável (como é que é possível depois da interpretação genial em a "Paixão de Cristo"?). 

Nem para os amantes de filmes de acção pura este filme serve. Muito francamente, nem vale a pena perderem tempo com ele.

Nota: 1

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Adeus ás Armas - Ernest Hemingway‏


O "Adeus ás Armas" ou " A farewell to Arms" é, sem dúvida alguma (na minha pequena e boémia opinião), o melhor romance da literatura contemporânea.

Filho da pena do génio literário Ernest Hemingway e neto da "Lost Generation", este romance épico, de uma realidade bruta e de frieza crua, dá-nos a conhecer a história de um soldado americano, Frederic Henry, ferido por um morteiro durante a primeira grande guerra mundial. Enviado para convalescência em Milão, conhece a enfermeira Catherine Barkley, por quem se apaixona loucamente.

Por má fortuna, Henry, tem de regressar à frente de combate e acaba por desertar por não suportar a saudade do amor que cresce, dia após dia, por Catherine.

Frederic Henry anda fugido e é condenado à morte por traição até que, após um tempo de estrada, volta para os braços da sua amada, procurando exílio na neutra Suiça.

Este romance marcou-me profundamente. O estilo duro de Hemingway, em parte biográfico, explode-nos na cara como se de uma bomba de emoções se tratasse. De uma beleza cega, capaz de nos fazer apaixonar pela vida e pelo prazer do Amor. Uma obra ímpar do meu escritor preferido. Os romances de Hemingway são poemas aos Deuses. O meu livro preferido.

Há um mês atrás saiu no Expresso um anexo acerca dos 50 livros que temos que ler "obrigatoriamente". Para meu espanto, "O Adeus ás Armas" não constava (nem qualquer romance deste Senhor). Alguém anda a dormir na parada! E não sou eu!

É extremamente dificil para mim dar uma nota a uma obra-prima desta qualidade. Não o sei fazer (quem sou eu?) e nem sequer me atrevo a tentar.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Livreiro de Cabul - Asne Seierstad‏



No contexto da guerra no Afeganistão, Asne Seierstad, jornalista e correspondente de guerra de nacionalidade norueguesa, viaja até Cabul para seguir de perto os costumes e intimidade de uma família afegã no quotidiano - a família de Sultan Kham, o livreiro mais importante e conhecido do seu país. Um homem que, apesar de guerras, invasões e trocas de regimes continua, desde há trinta anos, a dedicar-se, de corpo e alma, a um dos negócios mais antigos do Mundo.

Este livro traz-nos de forma simples, numa escrita quase romanceada, o choque e a realidade sociocultural entre as sociedades ocidentais e os países do Médio Oriente.

Envergando uma “burqa”, Seierstad junta-se ás mulheres da família, seguindo de forma atenta os seus dramas, segredos, amores e desejos. Aproveita também para seguir os homens e acompanhar atentamente a tarefa de importação de livros em cenário de guerra, inspirando o ar seco das montanhas do Afeganistão.

Livro excelente para conhecermos uma realidade cultural oposta à nossa, aproveitando relatos de personagens reais e fidedignos.

Nota: 4

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Cosmopolis



O mundo é gerido pelo capitaslismo selvagem dos homens pequenos, pelo liberalismo desrugulado, pela substituição dos valores morais, por valores financeiros e pela revolução tecnológica.

Num contexto de visita presidencial e violentas manifestações na cidade de Nova Iorque, um jovem homem poderoso mas decadente, moribundo e autodestrutivo, domina o mundo e mexe cordelinhos dentro de uma limusine, onde come, bebe, urina, escolhendo o destino dos outros como marionetas, sem saber (ou talvez não) que caminha para a guilhotina, caindo em espiral dentro do holocausto financeiro.

Depois de ler o livro "Cosmopolis" do Don DeLillo, há alguns anos atrás, confesso que fiquei um pouco desapontado com sua passagem ao grande ecrã pela mão do criativo David Cronenberg. Nada de especial é acrescentado. Apenas consigo retirar daqui uma das muitas interpretações dessa obra magnânime. 

Sublinho a prestação genial de Robert Pattinson representando o multi-milionário Eric Packer. Consegue descolar-se perfeitamente do seu papel de Jasper em Twilight (um dos meus maiores receios antes de ver o filme apesar do actor já o ter conseguido fazer em Remember Me, Bel Ami e em Water for Elephants). 

Ressalvo também as pequenas, mas estimulantes, aparições de Paul Giamatti e Juliette Binoche, peões do tabuleiro de xadrez desconcertante criado por Cronenberg.

Apesar de tudo vale a pena espreitar.

Nota: 3 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Palácio da Lua - Paul Auster‏



Sou suspeito quando falo de algum livro de Paul Auster, uma vez que li todos os livros traduzidos para português (vou ter a honra de vos apresentar neste espaço todos eles) e vi também os seus filmes (argumento e realização). Considero-me um fã do estilo e do autor.

Quando comprei este "Palácio da Lua" já levava uma bagagem considerável da obra deste escritor norte-americano que, volta não volta, visita o nosso país.

Esta história é a mais completa e pormenorizada de Auster, contando-nos a epopeia de Marco Stanley Fogg no conhecimento da sua própria história, da história da sua família, as suas origens como homem, desde a existência fugaz e solitária dos tempos de estudante em Columbia.

Mais uma vez, contado na primeira pessoa, com uma personagem quixotesca, à procura do sentido da vida, contra moinhos de vento, atravessando transversalmente o tempo e o espaço. Um viajante perdido que acaba por se encontrar num rio de peripécias e coincidências desaguando num "Palácio da Lua".

Nota: 5

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Para Roma com Amor




Vi finalmente "Para Roma Com Amor" este semana. Não fiquei desiludido. Não é o pior filme do Woody Allen. Longe disso. A fotografia é excelente, a banda sonora é perfeita e o enredo estimulante e envolvente.

Algumas histórias são mais interessantes do que outras, mas o brilhantismo irónico de Woody Allen está presente em todas, seja de forma explicita como na história encabeçada por Roberto Benigni, na qual um homem comum se torna famoso do dia para a noite, ou de forma sublime com Alec Baldwin a reviver e a tentar corrigir erros do passado, ou mesmo o status quo intocável do actores.

De destacar ainda o papel brilhante de Penélope Cruz representando uma voluptuosa prostituta italiana.

Sou suspeito, já que sou um fã incondicional do trabalho deste criador e sim, é verdade que outros filmes já me seduziram mais, mas temos que olhar para cada filme como uma parte ínfima de uma obra inigualável. Cada uma com o seu pormenor, com o seu lugar de destaque, nem que seja uma punch line isolada a meio de um discurso de uma personagem secundária.

Com o cenário romano, os actores escolhidos e o argumento ao dispor este é o filme possível mas, sublinho, tem momentos de brilhantismo, ironia, humor e critica sociocultural.

Comparo este filme a outras obras do realizador como “Everyone says i love you” ou “Celebrity” que, apesar de não terem sido bem recebidos pela critica na altura, fazem parte de uma lógica maior, que ficará para posterioridade.

Nota: 4

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Memórias das Estrelas sem brilho - José Leon Machado‏



Num dia quente de Julho, quando tinha muito em mente, resolvi ir relaxar para a Fnac do Chiado. Nada melhor do um sitio fechado, quente e apinhado de gente para relaxar. Enfim, pelo menos livros não faltam, pensei eu.

Foi naquele momento, enquanto passava o casaco de um braço para o outro, que me deparei com a capa de "Memórias das Estrelas sem brilho". Um soldado português durante a primeira grande guerra desenhado a preto e branco. Os olhos vítreos daquele homem e a sua expressão perdida deixaram-me hipnotizado. Foi amor à primeira vista. Tinha que comprar o livro.

O autor é José Leon Machado e confesso que nunca tinha ouvido falar, mas a verdade é que li o livro numa noite. Fiquei completamente envolvido na sua escrita simples e ingénua e nas memórias e aventuras descritas no romance.

O livro conta-nos a história de um jovem português destacado para a Flandres em 1914, directamente para as trincheiras. As amizades e a camaradagem ímpar em tempos de guerra e a realidade dos veteranos do Corpo Expedicionário Português.

Desde então, nunca mais vi o livro à venda e tenho tentado um pouco por todo lado encontrar mais obras do autor. Infelizmente em vão.

Nota: 4